terça-feira, 10 de junho de 2008

Ser “one of us”: o desafio de Obama

Por Maurício Moura

Outro dia me peguei conversando na rua com um americano que vestia a camisa do candidato do Partido Republicano, John McCain. O senhor deveria ter os seus sessenta e muitos e, com extremo entusiasmo, fazia campanha nas ruas de Washington. Perguntei como um candidato do partido do governo cujo índice de reprovação se aproxima dos 80% poderia ter alguma chance de ganhar a eleição. A resposta foi a seguinte: “He is one of us!” (Ele é um dos nossos!).

E essa resposta traduz o maior desafio do candidato democrata Barack Obama.

Barack Obama foi indicado candidato por conseguir conquistar fundamentalmente dois extremos da população americana (que representaram 85% dos votos conseguidos nas primárias). De um lado, um grupo jovem, altamente escolarizado, alta renda, que compreende muito bem o significado das políticas de George Bush e as suas mazelas para os Estados Unidos e para o mundo, e que buscam um novo rumo na condução de Washington com o fim da Era Clinton-Bush. No outro extremo, estão os eleitores de baixíssima renda, a maioria classificados como “african-americans” (afro-americanos) que enxergam a conquista da Casa Branca pelo senador de Illinois como uma vitória social e, em alguns casos, um triunfo racial.

O problema, e desafio para ele aterrissar na Casa Branca, reside no fato de os Estados Unidos ainda serem uma nação formada essencialmente por uma classe média branca altamente nacionalista, cuja visão ainda não os permite distinguir com convicção se a capital do Brasil é Buenos Aires ou Rio de Janeiro, e que, mesmo sofrendo no bolso com a crise da economia, ainda enxerga em figuras como John McCain (veterano de guerra, pele branca e cabelos grisalhos) um possível guardião da estabilidade social e “moral”.

O senador Obama terá até novembro para convencer os americanos de que ele legitimamente os representa e os republicanos usarão todos os argumentos possíveis, como idade, pouca vivência internacional e falta de experiência administrativa, para distanciá-lo dos eleitores. E não tenham dúvidas: essa disputa não é sobre governo X oposição, o governo Bush já está reprovado. A questão é saber se Obama pode ser considerado ou não “one of us”.

Maurício Barros de Moura é economista pela FEA-USP e mestre em Economia pela Universidade de Chicago.

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