segunda-feira, 21 de julho de 2008

O dia que conversei com Cacciola

Por Maurício Moura

Em 2003, ainda era aluno de mestrado em Chicago, e tive, juntamente com outros colegas de Finanças da Universidade, a oportunidade de escutar por quase 2 horas, o ex-banqueiro Salvatore Cacciola ao telefone direto de Roma. Antes de mais nada, uma aula de mercado financeiro e de Brasil também para o bem e para o mal.

A pergunta de inumeros estudiosos do mercado financeiro naquela dia (a maioria deles não brasileiros) era simples: como o sistema financeiro brasileiro havia atravessado uma mega desvalorização em 1999 e ainda sim saira fortalecido e com os bancos tendo batido recorde de lucros, principalmente nas operações de tesouraria (aquele tipo de ganho não oriundo de serviços prestados aos clientes) ?

Teria sido pela ação ilegal do Banco Central ao vender dólar mais barato para o Banco Marka e o BancoFonteCidam e assim ter salvo o mercado ao evitar a quebra de dois bancos pequenos ? Para ser uma idéia, nunca na história da economia mundial (ou "nunca antes na história desse planeta"), um país tinha atravessado tão bem tamanha crise.

Cacciola tem uma resposta muito simples para essa pergunta. Admite ter realizado operação em foro privilegiado com o Banco Central mas alega te-lo feito na busca de salvaguardar o interesse de seus clientes. Acusa diretamente o governo Fernando Henrique de ter "antecipado" a informação para os principais bancos brasileiros e estrangeiros que operavam no Brasil. Dessa maneira, as tesourarias tiveram tempo suficiente para mudar de posição e apostar a favor do dólar e contra o Real. Com isso, recorde de lucros foram despejados nos resultado dos Bancos.

O ex-banqueiro ainda completa: "todo o mercado ganhou bilhões com a desvalorização e eu que quebrei fico como o ladrão dessa história". E quem pagou essa conta ? Todos os brasileiros, que tiveram de conviver com uma taxa de juros de 45% ao ano, lançada em fevereiro de 1999, para evitar uma fuga maior de capitais.

Muito provavelmente a leitura de Cacciola sobre o episódio esteja correta. O que não esconde o fato do mesmo ter participado de uma operação ilegal juntamente com a Diretoria do Banco Central e que gerou um custo estimado de 1,5 bilhão de reais aos cofres públicos.

Todavia, Cacciola mostrou profundo desconhecimento de Brasil ao fugir para a Itália. Abandonou o paraíso dos contraventores, a terra das garantias dentro da Lei, dos Habeas-Corpus preventivos, das diversas instancias da Justiça e dos super-poderosos advogados de defesa. Os "companheiros" dessa ação ilegal ficaram e continuam a ganhar dinheiro no mercado financeiro. Agora , se Cacciola tiver o que não teve no passado, paciencia, logo estará solto.

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