quinta-feira, 17 de julho de 2008

O "solta e agarra" e as instituições

Por Carlos Moura

Nos últimos dias vimos assistindo a cenas policiais e judiciais fascinantes. Cada personagem defende sua área de ocupação e atuação com muita galhardia, procurando acima de tudo garantir sua independência. Como quase tudo, há sempre dois lados nas questões. Não estou muito preocupado com quem tem razão ou não, porque todos falam além da conta. Estou muito preocupado com a preservação de nossas instituições democráticas. Não podemos nos distrair, sob pena de permitirmos retrocessos.

O que realmente interessa nesse imbróglio todo é a clara confirmação de que continuamos atrasados como país democrático. As ocorrências que deram origem às investigações e prisões são a maior prova que continuamos a viver como colônia, ou seja, as majestades – mesmo com mandatos por prazo determinado – seguem governando o país como "reis absolutistas", distribuindo favores para seus amigos e correligionários, tudo por conta do erário e entendendo que não têm explicações a dar aos cidadãos.

O curioso é que tais práticas começaram a brotar diretamente em nosso solo faz 200 anos, com a chegada da Família Real, em 1808. D. João VI foi campeão, distribuiu títulos de nobreza com enorme generosidade. O mais triste é que esse estilo de governar perdura até hoje, mesmo com quase 120 anos de República.

É verdade que não há mais distribuição de títulos de nobreza, mas persiste a distribuição de porções da riqueza pública, sob as mais variadas formas, via avanços sobre o caixa dos governos. Há ações diretas e indiretas, mas no fim quem sai sempre perdendo é o cidadão comum, aquele que é menos igual perante a lei que os nobres da República.

Tudo indica, que os personagens presos na semana passada têm muito a nos explicar e possivelmente a nos devolver. Para isso, precisamos ter seriedade, não queremos shows, delírios messiânicos, opiniões baseadas em achismos e muito menos ações ou atitudes que possam colocar em risco nossas instituições democráticas. Não podemos aceitar que tudo o que conquistamos como país seja queimado em praça pública em fogueiras de vaidades.

A bola é nossa, vamos impor as regras do jogo.

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