terça-feira, 16 de outubro de 2012
INEFICIÊNCIA DOS PORTOS TIRA INDÚSTRIA DA COMPETIÇÃO GLOBAL
A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) aponta a demora no desembaraço de mercadorias nos portos como um dos principais fatores que retiram competitividade da indústria nacional. No Brasil, a média é de 5,5 dias, mais que o dobro da média mundial (2,9 dias), segundo dados do Banco Mundial.
Com medidas simples, como fazer os órgãos anuentes funcionarem 24 horas por dia - hoje eles cumprem horário comercial -, esse problema seria resolvido, diz o gerente de competitividade da Firjan, Cristiano Prado. "Podemos ter ganhos rápidos com pequenas ações como essa. Se a energia é o ar da indústria, a logística é a veia."
No setor aéreo, as deficiências nos aeroportos são tamanhas que anulam os ganhos conquistados com o avanço tecnológico. Na ponte aérea, por exemplo, o tempo médio de voo era de 50 minutos nos anos 70 e 80. Hoje, com aviões mais modernos e velozes, essa média subiu para uma hora. Isso aconteceu porque o crescimento do fluxo de passageiros - a média mensal avançou 28,6% nos últimos dois anos - não foi acompanhado pela expansão de pistas e pátios nos principais terminais. Resultado: os pátios do Santos Dumont e de Congonhas não comportam o volume de tráfego aéreo.
Para driblar essa limitação, os aviões ficam dando voltas no ar até receberem autorização para pouso. Uma estratégia cara para as companhias. Segundo estimativas da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), cada hora extra no ar representa custo adicional de US$ 9 mil, considerando gastos com combustível, jornada de trabalho dos pilotos e comissários e despesas com manutenção das aeronaves. "Esse custo acaba sendo repassado à sociedade, seja por meio da tarifa ou pela perda de produtividade", disse o presidente da Abear, Eduardo Sanovicz.
A Infraero, que administra 66 aeroportos no País, prevê investir R$ 4,9 bilhões até 2014 para modernizar os aeroportos e solucionar problemas como esse. No entanto, as projeções de investimento da estatal raramente são cumpridas na íntegra. Em 2012, o orçamento aprovado foi de R$ 2 bilhões, mas até julho apenas 18% foram desembolsados.
Entre 2000 e 2011, a média de execução orçamentária é de 51%, de acordo com levantamento da ONG Contas Abertas. A estatal atribui a baixa execução a atrasos em licitações, problemas com licenças ambientais e questionamentos na Justiça.
Gestão. A Infraero também vem mudando o modelo de gestão em alguns aeroportos, visando a dar agilidade às obras. São Gonçalo do Amarante (RN), Guarulhos (SP), Viracopos (Campinas, SP) e Brasília foram os quatro primeiros a serem concedidos à iniciativa privada. Galeão e Confins (MG) são os próximos da lista, mas a indefinição sobre o modelo - se será concessão ou parceria público-privada - vem fomentando incertezas entre os investidores. A definição do modelo era esperada para a primeira quinzena de setembro, mas o desinteresse de operadores aeroportuários estrangeiros no processo está fazendo o governo protelar a decisão.
Além da infraestrutura precária dos aeroportos, gastos com combustível também vêm afetando a competitividade das aéreas. Segundo estudo da consultoria Bain & Co, considerando itens como Querosene de Aviação (QAV), encargos trabalhistas e tarifas aeroportuárias, os custos estruturais da aviação comercial no Brasil são 26% maiores do que na Europa.
O QAV responde em média por um terço dos custos totais - na Gol chega a 42% - das aéreas brasileiras e é apontado como um dos principais responsáveis pelo prejuízo de R$ 1,6 bilhão de Gol e TAM no segundo trimestre. Diante desse cenário, o setor, que já foi contemplado com a desoneração da folha de pagamento em setembro, negocia com o governo, agora, uma desoneração para o combustível. "O combustível é de longe o principal custo das companhias do setor. Daí a importância da desoneração", disse o especialista em aviação Carlos Miguel, sócio da consultoria Bain & Co.
Na lanterna. Claudio Frischtak, especialista em logística, professor e sócio da Inter.B Consultoria, afirma que o Brasil, além de investir pouco em logística, investe mal. Ele aponta que o País tem perdido em investimento em logística até mesmo para outras nações que até pouco tempo eram problemáticas, como Peru e Filipinas. "O custo disso é imenso, e não falamos apenas de custos diretos, financeiros. Quantas pessoas morrem ou se machucam gravemente com o nosso problema de logística? Além de um drama pessoal terrível, isso gera gastos no SUS, na Previdência, na capacidade produtiva do País. Esse gasto precisa ser conhecido para aumentar os investimentos em infraestrutura."
Frischtak lembra que o Brasil gasta entre 14% e 15% de seu PIB com logística, enquanto os Estados Unidos gastam de 8% a 9% do PIB, o que mostra o tamanho da ineficiência brasileira. Mas ele afirma que está otimista e que o projeto do governo tem um novo paradigma importante, muda o modelo, chama a iniciativa privada para liderar o processo. Isso, em sua opinião, é relevante e só foi possível com o pragmatismo deste governo.
"Esse modelo vai obrigar a uma nova ordem de grandeza dos investimentos, não poderá ser feito apenas com o BNDES, salta de R$ 88,90 bilhões para R$ 160 bilhões. Isso vai gerar a necessidade de mais financiamento de longo prazo, com debêntures, mercado de ações e fundos", diz Frischtak.
Fonte: O Estado de S. Paulo [15/10/2012 18:50:00]
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