Por Pedro DuarteA abertura do mercado de resseguros no Brasil ainda é muito recente - na prática, pouco mais de um ano - e a certeza quando ao potencial do mercado é compartilhada pelos especialistas. Entretanto, se faltam técnicos especializados, é preciso agir rapidamente para investir na formação de pessoal e entrar no jogo com a competência desejada, já que o mercado ainda terá o IRB como protagonista nos próximos anos.
Em resumo, são essas as opiniões de alguns dos principais executivos de resseguro que atuam no país. De acordo com Jorge Caminha, da Guy Carpenter, as incertezas quanto ao futuro do resseguro resultam de décadas em que as seguradoras mal se preocupavam com a aceitação dos riscos, já que o IRB praticava uma política uniforme.
"O IRB aceitava tudo e não rejeitava nem mesmo as apólices trazidas às vésperas do vencimento, para as quais havia as famosas coberturas provisórias", lembra Caminha.
Ele acredita que a fase atual ainda é de transição. "Ainda há muito para acontecer e, dentro de cinco anos , teremos um mercado novo e equilibrado".
Ambiente globalizado
O CEO da Miller do Brasil, Marcio Correa, considera que o mercado brasileiro alimentou muitas expectativas por conta da abertura. Na sua visão, é preciso enxergar, entretanto, que o ambiente brasileiro de seguros está globalizado. Isso significa que a aceitação dos grandes riscos nacionais está sujeita a uma análise contextualizada com o cenário internacional.
"Os preços deixaram de ser mensurados conforme os acontecimentos verificados nos limites territoriais do país", ressalta Correa, acrescentando que "acabou o tempo da conversa e do 'jeitinho', ou seja, sobreviverá aquele que realmente agregar valor para a cadeia produtiva do setor".
Com linha de raciocínio semelhante, o presidente da Swiss Re, Henrique Oliveira, destaca que o Brasil deixou de ser um país imune a desastres naturais, conforme apontam os estudos mais recentes da resseguradora.
As variações climáticas - como o recente período de chuvas que trouxe alta sinistralidade nos seguros de automóvel e agrícola - demonstram claramente que o Brasil está muito mais vulnerável do que antes - e isso impacta diretamente no preço do seguro e do resseguro.
Nesse cenário, o executivo da Swiss Re acredita que as resseguradoras estrangeiras estarão cada vez mais aptas para atuar no Brasil. Mas, ele aposta na força do IRB-Brasil Re, "que deve se manter na liderança do mercado ". Apesar de 2005 ter ficado marcado por grandes catástrofes, elas não arrefeceram nos últimos anos, pois um estudo da companhia apontou 2008 como um dos piores anos nesse tipo de desastre natural. A boa notícia, segundo ele, é que "o mercado de resseguros já recompôs suas perdas".
Por tudo isso, não faltará capacidade de resseguro para os grandes projetos, como obras do PAC e os grandes eventos esportivos de 2014 e 2016, sobretudo nas áreas de engenharia e riscos financeiros. "O resseguro não está em queda, mas em fase ascendente", reforça.
O papel dos técnicos
Para Marcos Aurelio Couto, presidente da ACE, a decisão da companhia de entrar no mercado de resseguros do Brasil é global e estratégica. "Tendo em vista os negócios gerados pelos muitos investimentos em infraestrutura no país esperados para os próximos anos, haverá muito espaço para crescimento. Por isso, a ACE decidiu atuar em todas as frentes de resseguro", explica Couto.
Ele enfatiza, porém, que o futuro do resseguro está também nas mãos dos técnicos especializados. "Eles precisam despertar para a tendência de revalorização da atividade trazida pela abertura do mercado".
Couto acredita que, no futuro, esses profissionais serão cada vez mais disputados, como ocorre no mercado londrino, onde só podem mudar de empresa depois de cumprirem um período de "quarentena". "O próprio mercado incentivará a ascensão dos técnicos, elegendo os melhores em cada área", prevê.
Na visão do executivo, o IRB-Brasil Re enfrentará acentuada concorrência com o expertise consolidado das resseguradoras estrangeiras, mas deve se modernizar e se fortalecer para atuar em nichos, como o agrícola, crédito a exportação, habitacional, entre outros. "Uma empresa estatal é necessária nessas áreas para provocar a queda de taxas", aponta Couto.
A importância da subscrição de riscos é o ponto destacado por Rodrigo Protasio, diretor da Associação Brasileira de Corretores de Resseguros (Abecor-Re), e daí a necessidade de ter bons técnicos de seguros como um dos fatores convergentes para o desenvolvimento do mercado brasileiro de resseguros.
Protasio também coloca o IRB-Brasil Re em posição de destaque nos próximos anos, mas desde que o ressegurador amplie sua atuação fora do país.
Ele acredita no crescimento do mercado de resseguros brasileiro não apenas por conta dos investimentos previstos em infraestrutura,mas também por causa da expansão de outros negócios, como petróleo e fontes de energia renováveis, além do ramo de saúde, que por ser regido por legislação distinta, impede as operadoras de comprar diretamente o resseguro.
"A legislação precisa ser revisada, porque isso não faz sentido", reforça, convocando todos os agentes da cadeia produtiva do setor a investir na formação de pessoas e a utilizar a criatividade para desenvolver produtos inovadores, além de novas estruturas de operação e de subscrição.
"Nossa missão é ampliar e consolidar esse mercado, de forma competente, para torná-lo forte e capaz de exportar inteligência, transformando o Brasil no centro de resseguros da América Latina".
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