Por Márcia AlvesPara conhecer melhor as necessidades e prioridades do público de baixa renda, mercado de seguros investe em pesquisa vivencial e projetos de divulgação do microsseguro em favelas do Rio de Janeiro e São Paulo
O mercado de seguros está se preparando para conquistar a faixa de clientes de baixa renda com a oferta de microsseguros. Enquanto aguarda a regulamentação da lei que definirá as regras de comercialização e os tipos de produtos de microsseguros, o setor decidiu se antecipar e partir ao encontro de seu público alvo. As favelas de duas grandes metrópoles foram as escolhidas como ponto de partida para iniciativas que visam, de um lado, identificar o modo de vida, os hábitos de consumo e as necessidades dos brasileiros mais pobres e, de outro, divulgar o conceito de proteção do seguro para essa faixa da população.
O morro Dona Marta, favela da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde vivem mais de 6 mil pessoas, foi o escolhido para abrigar o projeto piloto "Estou Seguro", resultado de um convênio entre a Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), do qual também participam 16 seguradoras e mais a entidade nacional representativa dos corretores (Fenacor) e a Fundação Escola Nacional de Seguros (Funenseg). Com um amplo cronograma de ações iniciado em março e previsto para terminar em janeiro do próximo ano, o projeto está sendo implantado pelo Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), por sua especialização em microcrédito.
Estudo do público potencial
"O morro servirá como laboratório ao seguro para identificar os problemas e as necessidades das classes C, D e E", afirma a coordenadora do projeto, Maria Elena Bidino. A escolha da favela como foco de pesquisa não foi mero acaso. Um estudo produzido por Regina Lídia Giordano Simões, responsável pela área de microsseguros da Superintendência de Seguros Privados (Susep), ajuda a identificar o público alvo do microsseguro, considerando inúmeras varáveis além da baixa renda.
Ao cruzar os dados da população economicamente ativa, que corresponde a 52% dos 186 milhões de brasileiros, com a classe de renda de até dois salários mínimos, mais o tipo de construção dos domicílios e a taxa de analfabetismo, o estudo identificou um público aproximado de 100 milhões de pessoas. A maioria está concentrada em áreas urbanas, nas favelas e periferias. "O domicílio do potencial consumidor de serviços de microsseguro no Brasil é predominantemente urbano, o que poderia indicar que os programas e políticas para o desenvolvimento do microsseguro no país podem estar, em sua fase inicial, direcionados à população de baixa renda dos grandes centros urbanos do país", concluiu Regina em seu estudo.
O seguro no cinema
Segundo Maria Elena Bidino, até agosto deste ano, o projeto "Estou Seguro" já contabiliza o resultado de algumas ações em curso. Duas delas, o teatro de rua e um curta-metragem, produzidos especialmente para disseminar os conceitos de seguro, conquistaram os aplausos e a simpatia dos moradores. Percorrendo as ruas do morro, um grupo de atores da comunidade vestidos de super-heróis encenam uma esquete enaltecendo as vantagens da proteção do seguro.
Já no curta-metragem, personagens se encontram em frente a uma birosca, e dialogam, casualmente, a respeito do benefício do seguro, que proporcionou um enterro digno para a sogra de um deles, despertando o interesse inclusive da dona do negócio. Exibido, recentemente, em encontros sobre microsseguros fora do país, o curta-metragem recebeu elogios.
Para Eugênio Velasques, diretor da Bradesco Vida e Previdência, que participou desses encontros, o sucesso do filme se deve à credibilidade dos personagens e do enredo, que não sofreu intervenção de nenhum diretor técnico de seguradora. "Qual companhia faria seguro para uma birosca? Seria uma afronta ao manual de risco tradicional", justifica.
Captadores de seguros
Instalado em um ponto fixo do Morro Dona Marta, o imóvel que abriga o Projeto "Estou Seguro", e que deverá ser batizado oficialmente de "A Casa do Seguro", dispõe de material de divulgação de vários produtos de seguros. Embora em sua versão original o projeto não contemplasse a venda de seguros, Maria Elena Bidino diz que essa condição foi acrescida por imposição da OIT. Por isso, o corretor de seguros Emílio Rodrigues Gomes assumiu essa responsabilidade desde maio último, cuidando da formação de prepostos entre os moradores do morro. "Chamamos de prepostos por falta de um termo adequado. Mas, eles são captadores de seguros, capacitados e treinados", explica Gomes.
Entre cinco prepostos que em breve receberão a habilitação de corretores de vida e capitalização, um deles, segundo Gomes, conseguiu o feito de vender sete apólices da Sinaf, a primeira em julho passado, com cobertura para morte acidental e natural e serviço de assistência funeral, por um prêmio médio mensal de R$ 30,00. "Esse valor é perfeitamente suportável pelas famílias do Dona Marta", garante o corretor. Ele informa, ainda, que a cobrança é feita por meio de boleto bancário e que nenhum sinistro foi avisado até agora.
Produtos adaptados
Alexandre Penner, diretor técnico da Susep, diz que os produtos de seguros não foram desenhados exclusivamente para serem vendidos no morro. "São produtos que existem no mercado e foram adaptados ao microsseguro, mas não necessariamente focados na classe E, já que, ao invés da renda individual, levam em conta a renda familiar", explica. Maria Elena Bidino ressalta, entretanto, que essa adaptação de produtos deve seguir algumas regras, como a simplicidade de condições e de regulação de sinistros. "Não é o excesso de informações que irá proteger o consumidor", frisa.
Um estudo recente produzido pelo economista Francisco Galiza, identificou entre os produtos de seguros existentes no mercado quatro que podem ser adaptados ao microsseguro. Um deles é o PASI, que tem cerca de 2 milhões de seguros de vida vendidos aos trabalhadores temporários ou terceirizados. Outro é a assistência funeral, cujo potencial estimado de receita é de R$ 2 bilhões por ano. Em seguida vem o microcrédito, que embora não tenha atingido todo o seu potencial, tem forte relação com o microsseguro e condições de gerar, apenas no seguro prestamista, uma receita de até R$ 150 milhões por ano. Por fim, os títulos de capitalização, que podem ser vendidos junto aos seguros de acidentes pessoais, têm o mérito de poder atingir uma grande massa, estimada em 10 milhões de pessoas.
Mas, se uma das metas do setor de seguros é prover produtos específicos de microsseguros para a baixa renda, a ACE Seguradora deu o primeiro passo. Em julho, a companhia anunciou que fará sua estreia no projeto "Estou Seguro" com produtos sob medida para os moradores do Dona Marta, ao custo mensal entre R$ 2,50 e R$ 7,00. "Trata-se de um excepcional ensaio para o futuro microsseguro", considera o gerente de Negócios da ACE, Daniel Meneghin.
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